A greve nacional da educação federal de 2024, considerada uma das maiores mobilizações da história recente das universidades e institutos federais, é o tema central do livro Sindicalismo e SINASEFE-SP: Vol. II – Lutas e perspectivas a partir da greve de 2024 no IFSP. A obra, organizada por Adelino de Oliveira, Fernando Heck, Grazielle Felício e Rogério de Souza, acaba de ser disponibilizada gratuitamente em formato digital e propõe uma reflexão sobre os desafios atuais da organização da classe trabalhadora.

Mais do que registrar os acontecimentos da greve, o livro busca compreender seus significados políticos e sociais. Ao longo dos capítulos, os autores analisam como as transformações do capitalismo contemporâneo, a precarização das relações de trabalho e a crise das formas tradicionais de representação impactam a atuação dos sindicatos e os processos de mobilização coletiva.

A publicação reúne contribuições de pesquisadores e militantes que interpretam a greve de 2024 como expressão das contradições vividas pela classe trabalhadora no Brasil. Os textos discutem desde o contexto político e econômico que levou à paralisação nacional até os desafios enfrentados pelas organizações sindicais para construir unidade, mobilização e participação de base.

A obra também apresenta experiências concretas de organização da greve em diferentes campi do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), evidenciando como uma mobilização nacional ganha características próprias nos territórios e ambientes de trabalho. Os relatos abordam estratégias de mobilização, dificuldades organizativas e disputas políticas que marcaram o movimento paredista.

Outro eixo importante do livro é a relação entre sindicalismo, direitos humanos e combate às desigualdades. Os autores defendem que pautas como a luta antirracista e a defesa dos direitos sociais devem estar integradas a um projeto mais amplo de transformação social, fortalecendo o papel dos sindicatos como espaços de formação política, produção de conhecimento e construção de alternativas coletivas.

Ao articular análise teórica e experiência prática, a publicação se apresenta como uma ferramenta de estudo para pesquisadores das áreas de educação, trabalho e sindicalismo, além de servir como instrumento de formação para militantes, dirigentes e trabalhadores interessados em compreender os desafios da organização coletiva no século XXI.

O e-book é gratuito e pode ser acessado no endereço: https://blogdausinaeditorial.wordpress.com/2026/05/27/sindicalismo-e-sinasefe-sp-vol-ii-ebook-gratuito-2/

 

Confira a resenha sobre o livro

Sindicalismo, luta de classes e a greve de 2024: memória, análise e perspectivas

O livro Sindicalismo e SINASEFE-SP: Vol. II – Lutas e perspectivas a partir da greve de 2024 no IFSP* constitui importante contribuição para a compreensão do sindicalismo contemporâneo na educação pública brasileira. Organizada por Adelino de Oliveira, Fernando Heck, Grazielle Felício e Rogério de Souza, a obra reúne pesquisadores, docentes, técnico-administrativos em educação e militantes sindicais em torno da análise da maior greve da história recente da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica e das Universidades Federais, ocorrida em 2024.

O livro busca interpretar a greve e seus desdobramentos à luz das transformações do capitalismo contemporâneo, das mudanças no mundo do trabalho e da crise vivenciada pelas organizações sindicais. Nesse sentido, assume perspectiva classista e crítica, fundamentada em autores e autoras do campo marxista, compreendendo o sindicalismo como instrumento de organização política da classe trabalhadora e transformação social, e não apenas como mecanismo de negociação corporativa.

O prefácio e apresentação, de Maria Amélia Ferracciú Pagotto e Fernando Heck respectivamente, situam o debate em um contexto mais amplo de ofensiva do capital contra os direitos sociais e as organizações dos trabalhadores. Argumentam que os sindicatos devem superar uma atuação restrita às reivindicações econômicas e constituir-se como espaços de formação política, cultural e intelectual da classe trabalhadora. 

A primeira parte da obra, intitulada “Sindicalismo e as vicissitudes do mundo contemporâneo”, concentra-se na análise de conjuntura. O capítulo de Michelangelo Torres reconstrói o percurso da greve nacional da educação federal, relacionando-a ao contexto político inaugurado após o golpe de 2016 e aprofundado pelos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro. Torres destaca o congelamento salarial, os cortes orçamentários e as reformas neoliberais como elementos centrais para a construção do movimento paredista de 2024. A greve surge, assim, como resposta à desvalorização das carreiras da educação federal e à insuficiência das propostas apresentadas pelo governo Lula durante as negociações salariais.

Os capítulos seguintes aprofundam a discussão sobre os limites políticos da chamada Frente Ampla que alicerça o governo Lula-Alckmin. A análise de Anderson Alves Esteves sustenta que a política econômica baseada no Arcabouço Fiscal restringe investimentos sociais e dificulta o atendimento das reivindicações dos servidores públicos. Já Maíra Ferreira Martins demonstra que a força da greve de 2024 residiu na capacidade de articular reivindicações econômicas imediatas a uma perspectiva política mais abrangente, questionando as prioridades orçamentárias do Estado brasileiro e denunciando os limites impostos pela política fiscal do governo federal.

O texto de Grazielle Felício e Rogério de Souza relaciona a condução da greve de 2024 à crise do sindicalismo contemporâneo. Os autores retomam o debate clássico sobre burocratização e cooptação pelo Estado, problematizando os desafios enfrentados pelas novas lideranças sindicais e pelas formas tradicionais de organização coletiva. A conclusão é que o sindicalismo vive uma crise profunda, mas não irreversível, exigindo novas formas de solidariedade e organização diante da precarização crescente do trabalho.

A segunda parte, nomeada “A greve de 2024 no IFSP”, apresenta estudos de caso sobre a greve no Instituto Federal de São Paulo. Os capítulos dedicados aos campi de Sertãozinho, Sorocaba e São José dos Campos demonstram como uma mobilização nacional adquire características específicas nos espaços locais. Essa abordagem é um dos grandes méritos do livro, pois permite compreender a greve não apenas como fenômeno nacional, mas também como experiência e vivência concretas construídas cotidianamente nos ambientes de trabalho. Lenice Massarin Figueiredo, Marcelo Augusto Miyahiro, Milton Mariani Junior, Reinaldo Tronto, Rinaldo Macedo de Morais e Ricardo Rodrigues Alves de Lima evidenciam dificuldades organizativas, disputas políticas e estratégias de mobilização que ajudam a entender os desafios enfrentados pelo sindicalismo de base.

A terceira parte, “Sindicalismo, direitos humanos e luta de classes”, amplia o escopo do debate ao incorporar temas relacionados aos direitos humanos, à questão racial e à luta de classes. O texto de Adelino Francisco de Oliveira discute a relação entre identidade negra e sindicalismo, defendendo que a luta antirracista deve estar integrada ao projeto político da classe trabalhadora. Já o capítulo de Gustavo dos Santos Cintra Lima propõe uma reflexão crítica sobre os direitos humanos, argumentando que sua defesa precisa estar articulada a um projeto político de transformação social amplo.

Do ponto de vista analítico, o principal mérito da obra reside em sua capacidade de articular teoria e prática. Os autores e autoras não se limitam à descrição dos acontecimentos, procuram interpretar a greve de 2024 como expressão das contradições do capitalismo contemporâneo e das dificuldades enfrentadas pelo movimento sindical em um contexto marcado pela plataformização do trabalho, pela fragmentação da classe trabalhadora e pela difusão de ideologias individualistas.

Assim, Sindicalismo e SINASEFE-SP – Vol. II cumpre o objetivo de registrar, analisar e problematizar a greve de 2024 e seus significados políticos. E constitui importante fonte para pesquisadores da área de educação, trabalho e sindicalismo, além de servir como instrumento de formação política para militantes e dirigentes sindicais.

Trata-se, portanto, de um livro que ultrapassa o relato de uma experiência específica e contribui para um debate mais amplo sobre o papel dos sindicatos na sociedade contemporânea, pois, ao discutir os desafios da organização dos trabalhadores em um cenário de ofensiva neoliberal, precarização do trabalho e crise da representação política, reafirma a atualidade do sindicalismo como espaço de resistência, formação política e construção de projetos coletivos para a classe trabalhadora.

 

Rogério de Souza, doutor em Sociologia, professor no IFSP, e coordenador estadual da Seção São Paulo do Sinasefe (2021-2025).